Quem vê o mato crescer sobre um carro abandonado pode não perceber, mas há muito valor desperdiçado em plena via pública
De todos os produtos consumidos atualmente no planeta, o mais cobiçado para a reciclagem é o automóvel em fim de vida útil. Isso se deve ao alto valor agregado em diferentes componentes e à capacidade de reutilização de peças no mercado de reparo.
Países como Estados Unidos e Japão reciclam, em média, 5% da sua frota de veículos circulante a cada ano. O volume é resultado de incentivos previstos em marcos legais, que estimulam sistemas periódicos de inspeção veicular. Esse controle obriga os motoristas a manterem reparos custosos e, por esse motivo, muitos optam por investir em um novo modelo.
Descartado na reta final, o veículo ganha sinal verde para um novo mercado. Quando deixa a frota, passa a ser valorizado em centros de desmonte credenciados. No exterior, as peças com valor de reutilização são separadas para a venda com garantia e os insumos restantes são encaminhados para unidades de trituração e separação para sua posterior reciclagem. Todo esse processo pode gerar reaproveitamento de 80% a 90% dos materiais do veículo. O restante é destinado a aterros controlados.
Brasil estacionado
No Brasil ainda não existe um processo sistêmico de reciclagem, há somente o desmanche de alguns veículos provenientes de leilões públicos e privados. Isso no mercado formal. O problema é que grande parte dos materiais desmontados são descartados de forma indiscriminada, contribuindo significativamente para a contaminação ambiental. Por vezes, carros inteiros são abandonados ao tempo.
Se o Brasil reciclasse 2 milhões de veículos por ano, o que corresponde à taxa média de países desenvolvidos, seria possível obter os seguintes resultados, considerando somente as vantagens relacionadas à reciclagem do aço dos veículos:
- Poupar energia equivalente a 1,4 da Usina de Itaipu;
- Gerar 2,15 milhões de créditos de carbono ao ano;
- Economizar 120 milhões de toneladas de recursos naturais ao ano.
Para discutir esse assunto público, de interesse econômico e ambiental, a Sociedade Mineira de Engenheiros (SME) realizará nos dias 22 e 23 de junho o Seminário Reciclagem e Sustentabilidade na Indústria Automobilística. Sob a coordenação do Professor Daniel Castro, referência mundial no tema, o evento conta com a participação da Japan International Cooperation Agency (JICA) e de representantes da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (SEDE), Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEAM) e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
A aliança com os japoneses ganhou fôlego em Minas Gerais com a criação do CIRA – Centro Internacional de Reciclagem de Automóveis, em 2019. O CIRA foi construído através de uma parceria internacional entre o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) e o governo do Japão, através da agência japonesa. O centro, localizado no Campus II do CEFET-MG, possui tecnologia de ponta fornecida para o desmonte e reciclagem completa de veículos em fim de vida útil. A tecnologia aplicada permite o aproveitamento de 90% dos materiais, que corresponde ao mesmo índice obtido nos processos de reciclagem de veículos no Japão. A finalidade do CIRA é servir como fonte de tecnologia para o desenvolvimento do setor no Brasil e na América Latina.
Para o fundador do CIRA, o professorDaniel Enrique Castro, é urgente ampliar o campo de ação dos atuais modelos produtivos para a economia circular. “Com ela, são criadas etapas adicionais a partir do fim de vida útil dos produtos, como sua coleta e transporte até centros de desmontagem e posterior separação dos diferentes materiais que devem ser reciclados para reutilização na fabricação de novos produtos. Esse fluxo contribui para a geração de novos empregos e um modelo de crescimento econômico sustentável para as novas gerações”, explica Castro, doutor em engenharia mecânica pela Universidade de Karlsruhe, da Alemanha
Durante o seminário haverá visitas técnicas ao CIRA, no CEFET-MG, e a alguns desmontes da cidade de Belo Horizonte.
O evento é gratuito e será realizado no Auditório da SME.
Rua dos Timbiras, 1514 – Bairro Lourdes – Belo Horizonte (MG)
Os interessados podem confirmar presença pelo tel.(31) 99886-7400 ou pelo e-mail:fabiola@sme.org.br.



